domingo, 29 de abril de 2012

Homilia da Missa do Crisma – Dom Fernando Saburido


Homilia da Missa do Crisma – Dom Fernando Saburido

MISSA DO CRISMA
5ª Feira Santa de 2012
Catedral


(Leituras: Is 61,1-3ª.6ª.8b-9 – Ap 1,5-8 – Lc 4,16-21)

“Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele” (Lc 4,20c)

Caríssimos irmãos e irmãs:

Fixar os olhos na Pessoa e na Palavra de Jesus Cristo é o convite que recebemos nesta manhã de Quinta-feira Santa. Olhamos para Jesus com admiração e encantamento, pela sabedoria e convicção de suas palavras e testemunho. Um ensinamento feito com autoridade, sem autoritarismo. Nele fixamos nosso olhar, desejosos de beber na fonte e caminhar ao seu lado, na condição de fiéis e destemidos seguidores.

Celebramos hoje a Instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Juntamente com significativa representação do povo de Deus, povo este que caminha conosco em nossas paróquias e comunidades, queremos viver esse momento de unidade eclesial. Com alegria, renovaremos diante dele, nosso compromisso para o serviço e receberemos nossa porção dos santos óleos, nessa Missa do Crisma. Afinal, estamos reunidos como Igreja Particular de Olinda e Recife, desejosos de caminhar na fé, na esperança e no amor evangélico que nos confirmam como autênticos irmãos e irmãs.

Queremos acolher com alegria, todos os novos presbíteros do clero arquidiocesano ou da vida religiosa e consagrada, que pela primeira vez renovam conosco as promessas feitas na ordenação sacerdotal, assim como os novos diáconos casados, membros do nosso presbitério. Solidarizamo-nos com aqueles que se encontram enfermos, impossibilitados de estar aqui, porém, unidos conosco pela força da oração. Queremos ainda manifestar nossa saudade e gratidão ao querido irmão padre João Oliveira Novais que no segundo semestre do ano passado partiu para a casa do Pai. Proveniente de Portugal, durante quarenta anos, aproximadamente, esteve a serviço desta Igreja Particular, a maior parte do tempo na Paróquia de Nossa Senhora das Graças.

Iniciamos o Tempo da Quaresma motivados pela palavra dirigida à Igreja que está em Éfeso, na Ásia Menor, onde o autor do Apocalipse reconhece sua boa conduta, esforço e perseverança, porém, confessa ter uma coisa contra. Assim lemos no texto: “você abandonou o seu primeiro amor. Repare onde você caiu. Converta-se e retome o caminho de antes. Caso contrário, se não se converter, eu chego e arranco da posição em que está o candelabro que você tem (Ap 2,4-5). Somos amados pelo Senhor desde o ventre materno e no batismo recebemos o dom da fé e, como tal, inseridos oficialmente na Igreja. Mais adiante, fomos chamados para o ministério ordenado, apesar de nossa indignidade. Na condição de presbíteros e diáconos temos consciência de nossa responsabilidade e dos desafios que se colocam à nossa frente, mas confiamos naquele que nos convocou e enviou. Os quarenta dias de retiro quaresmal que concluímos, certamente nos ajudarão a voltar ao “primeiro amor”, fazendo-nos reviver com entusiasmo as primícias do nosso ministério. É necessário perseverar no caminho, apoiados especialmente na espiritualidade e na fraternidade. O decreto conciliar Presbyterorum Ordinis assim nos ensina: Os presbíteros não poderiam ser ministros de Cristo, se não fossem testemunhas e dispenseiros da outra vida que não a terrena, mas nem sequer poderiam servir aos homens, caso se mantivessem alheios a sua existência e condição de vida” (PO,3). Somos enviados, portanto, para sermos “testemunhas e dispenseiros” da graça de Deus que nos foi confiada. Nesta condição, devemos ser luz e sal procurando iluminar e dar sabor à vida dos que perderam a esperança. Como presbíteros e diáconos esforcemo-nos por não negligenciar nossa vida de oração e o entusiasmo pastoral. A contemplação e a ação caminham paralelas e nos dão o suporte para fazer o bem a todos/as que Deus nos confia, especialmente os mais pobres e necessitados.

O Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário do seu início estamos para celebrar, nos possibilitará explorar toda riqueza contida nos seus documentos que, cinco décadas depois, não foram ainda suficientemente assimilados. Na homilia pronunciada em sua primeira Missa como papa, Bento XVI afirmou: “Os documentos conciliares não perderam a atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas questões da Igreja e da atual sociedade globalizada”. As “novas questões” a que se refere o Santo Padre são realidades desafiadoras do mundo secularizado em que vivemos. Elas giram, especialmente, em torno de ideologias contrárias aos ensinamentos do Evangelho e dão espaço para o crescimento do individualismo que contradiz a partilha presente na vida da Igreja, desde os primeiros cristãos (cf Atos 4,32-37). O saudoso cardeal conciliar Aloísio Lorscheider em artigo publicado pela Paulus no livro “Vaticano II – 40 anos depois” escreve: “Foi o Concílio que não veio para definir ou condenar, mas para servir e salvar. (…) Quis ser um fermento evangélico inserido no coração do mundo e da humanidade, a fim de tornar o mundo o mais saudável possível, saudável no corpo e na alma. (…) Quis injetar em toda a ação pastoral e evangelizadora um amor compreensivo, humilde, serviçal, que fosse até a doação de si mesmo. Quis o evangelho vivido na pobreza, no desapego dos pobres terrestres e dos privilégios, numa atitude de peregrino totalmente disponível”. O Cardeal Lorscheider conclui o seu artigo afirmando que o Papa Paulo VI, numa visita, durante o Concílio, a ciganos acampados em Pomezia, perto de Roma, resumiu tudo nestas palavras: “Vós vos encontrais no coração da Igreja. Não tendes pátria, não tendes morada, sois os mais pobres dos pobres, imagem da Igreja do Vaticano: peregrinos perpétuos com os olhos fixos na Pátria Eterna!”

Justamente nesse ano de 2012, o papa Bento XVI está mandando a toda Igreja a carta apostólica “Porta Fidei” propondo um ano da fé que terá início em outubro próximo, para celebrar digna e profundamente o cinquentenário do Vaticano II. Será um estímulo a mais para as Igrejas de todo o mundo, especialmente para nós de Olinda e Recife que estamos empenhados em construir nosso novo Plano de Ação Pastoral, levando em conta todas as “novas questões” de que fala o Santo Padre e os desafios locais da vida e da história do nosso povo.

As palavras do profeta Isaias, proclamadas na primeira leitura e assumidas por Jesus na sinagoga de Nazaré, conforme escutamos no Evangelho de São Lucas, definem perfeitamente seu projeto messiânico e, consequentemente, dos seus discípulos de ontem, hoje e sempre: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19). O Evangelho nos indica os pobres, enfermos e pecadores como merecedores da especial atenção de Jesus. Referindo-se a estes, Jesus afirma com bastante clareza: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2,17). As Igrejas da América Latina, que concentram a maior população católica do mundo, e também grandes desigualdades sociais, vêm confirmando a cada Conferência Episcopal, este caminho, quando assume a evangélica “opção preferencial pelos pobres”.

Neste dia em que Jesus Cristo celebrou, no cenáculo de Jerusalém, sua última ceia e realizou o eloquente gesto de amor, lavando os pés dos discípulos, somos convidados a renovar nosso compromisso sacerdotal e diaconal, reafirmando o nosso desejo de fidelidade à missão para o serviço, com as mesmas disposições do mestre Jesus. Somos convocados a viver na unidade e fraternidade, visando única e exclusivamente o bem espiritual e social dos nossos irmãos/ãs. A unidade foi um dos principais temas do testamento de Jesus, pronunciado na última ceia. Jesus, inclusive reza para “que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Ele entendia que, sem a força da unidade a missão colocada nas mãos de ”vasos de argila” seria impraticável. Os Santos óleos, hoje abençoados e consagrado que serão, ao longo deste ano, utilizados em nossas paróquias, são sinais da unidade que deve caracterizar a nossa Igreja.


Quinta-feira Santa é o verdadeiro dia do Padre. Gostaria de terminar com algumas das exortações colocadas da conclusão da Presbyterorum Ordinis: “Lembrem-se os presbíteros que jamais se encontram sós no desempenho de sua obra, mas que se apoiam sobre a força onipotente de Deus. Crendo em Cristo que os chamou a partilhar do seu sacerdócio, dediquem-se com toda confiança ao ministério, sabendo que Deus é poderoso para aumentar neles a caridade. Lembrem-se ainda que têm como companheiros os irmãos no sacerdócio e até os fiéis de todo o mundo. Pois todos os presbíteros cooperam na realização do plano de salvação de Deus, isto é, do mistério de Cristo, ou seja, do sacramento mantido oculto desde os séculos em Deus e que só pouco a pouco se realiza, conspirando os diversos ministérios para a edificação do corpo de Cristo, até que se complete a medida da idade d’Ele. Todos esses valores, embora estejam ocultos com Cristo em Deus, podem ser percebidos da maneira mais viva pela fé. Pois é pela fé que devem andar os guias do povo de Deus” (PO,22).

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife.

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